quarta-feira, 30 de maio de 2012

A contribuição das contagens cíclicas para a acurácia em uma empresa do ramo gráfico: um estudo de caso



A contribuição das contagens cíclicas para a
acurácia em uma empresa do ramo gráfico:
um estudo de caso



Resumo
A necessidade de se manter estoques é estratégica para as empresas, no mercado competitivo, operar com baixo custo é uma questão de sobrevivência, e estoques excessivos geralmente são acompanhados por falta de liquidez. O processo de armazenagem de materiais não agrega valor algum ao material em si, apenas custos. A pesquisa discorrerá sobre as operações de empresa da área gráfica, que possui receitas concentradas em poucos clientes. A situação é problemática quando o cliente mais importante da empresa realiza um pedido, a equipe de vendas confirma no sistema a disponibilidade de entrega e no momento da separação, o depósito retorna com a afirmação que o material não existe fisicamente. Em maior ou menor grau, empresas do mundo inteiro
se deparam com questões semelhantes.

Palavras Chave:
Acurácia, Níveis de Serviço, Contagens Cíclicas e Logística.

Introdução
A necessidade de se manter estoques é estratégica para as empresas, no mercado competitivo, operar com baixo custo é uma questão de sobrevivência, e estoques excessivos geralmente são acompanhados por falta de liquidez. Martins 2006, relata que o processo de armazenagem de materiais não agrega valor algum ao material em si, apenas custos como: custo de avarias na movimentação, custo de obsolescência, custo na manutenção de instalações e equipamentos, custo do pessoal operacional, etc. Sendo assim todas as movimentações feitas no estoque tem que agregar valor nos serviços, ou seja, mais velocidade, flexibilidade e menor tempo para a disponibilidade do material.
Diante disto existe a importância de manter a acurácia em níveis elevados, caso contrário é quase impossível garantir um alto nível de serviço e consequentemente gerar ganhos no processo de distribuição.
Vamos discorrer sobre uma empresa da área gráfica, que possui receitas concentradas em poucos clientes. A situação problemática quando é perto do final do expediente o cliente mais importante da empresa realiza um pedido, a equipe de vendas confirma no sistema a disponibilidade de entrega e quando da separação, o almoxarifado retorna com a afirmação
que não há o material disponível em sistema. Em maior ou menor grau, empresas do mundo inteiro se deparam com questões semelhantes.
A pesquisa desenvolvida utilizará de um estudo e caso.  A Empresa analisada foi fundada há mais de 100 anos, no Brasil opera desde 1996, quando adquiriu uma divisão de produção de materiais gráficos em especial chapas de alumínio para impressão gráfica.

Desenvolvimento
A Logística tem como missão colocar o produto certo, na hora certa, na quantidade certa, no local certo, na quantidade certa e principalmente com custos aceitáveis. Com essa visão a boa gestão de estoques, evitando ou minimizando erros é crucial para essa missão seja atingida. Uso de tecnologias alinhadas a processos operacionais são os caminhos utilizados
para melhorar a gestão de estoques.
O setor de logística da operação brasileira da companhia em questão não dispõe de tecnologia Radio-Frequency IDentification (RFID), ou, como conhecemos: identificação por rádio frequência, essa ferramenta  possibilita troca de informação na movimentação de material, é possível coletar dados a distância, situação em que minimiza os erros de conferência, de registros etc.
 A empresa também não dispõem de coletores de dados com leitores de código de barras, sendo todo o processo de recebimento, movimentação, armazenagem e expedição de materiais baseado em papel.
Como a empresa não dispõem de tecnologias de movimentação de materiais as operações de recebimento e conferências são feitas através de processo manual com excesso de controles em papel. Então se indaga como aumentar e manter a acuracidade em níveis aceitáveis?
Para Bowersox, et al. (2006), o nível de serviço entregue ao cliente é reflexo da avaliação da qualidade logística da empresa. Eles afirmam que o desempenho operacional está ligado diretamente com o tempo de operação ou atendimento ao cliente. Ballou (1993) afirma que o nível de serviço é a qualidade no gerenciamento do fluxo operacional de bens e serviços e complementa que o nível de serviço é fundamental para assegurar a fidelidade do cliente e está diretamente ligado aos custos deste serviço.
Neste sentido Bertaglia (2009) associa a acurácia do estoque ao nível de serviço adequado ao cliente, uma vez que o conteúdo teórico condiz ao físico dentro do armazém.
veis aceitáveis?
"Prestar um serviço logístico de excelência 
tem sido o objetivo de inúmeras empresas 
que perceberam no atendimento, e até mesmo 
na superação das expectativas de seus 
clientes, uma forma de garantir sua lealdade 
e conquistar novas contas. É através do 
serviço logístico que as empresas procuram 
diferenciar seus produtos, fazendo com que 
os clientes percebam mais valor naquilo que
estão comprando."  (FIGUEIREDO, FLEURY E 
WANKE, 2009, p.143)


Ballou (1993), já afirmara que o estoque é o centro da cadeia de suprimentos, servindo como buffer (amortecedor) de forma estratégica, seja para compra de insumos ou matérias-primas, como para vendas (materiais ou produtos acabados). Neste sentido:
" A formação do estoque está relacionada ao 
desequilíbrio existente entre a demanda e 
o fornecimento. Quando o ritmo de fornecimento 
é maior que a demanda, o estoque 
aumenta, quando o ritmo da demanda supera 
o fornecimento, o estoque diminui, podendo 
faltar material ou produto. Se a taxa 
de fornecimento fosse igual à de demanda, 
não haveria necessidade da formação dos estoques. 
Só isso já confirma a obrigatoriedade 
da existência de estoque para alguns seguimentos
de mercado e categorias de produtos."  
(BERTAGLIA, 2009, p.180)


Fleury et al. (2008), destacaram uma das principais características da logística moderna que é sua crescente complexidade operacional, pois há um considerável aumento do stock keeping unit (sku), ou seja, nas unidade mantidas em estoque, maiores frequências de entregas, menor tempo do lead time de entrega dos produtos, diminuição de tolerância a erros operacionais.
Diante de toda essa complexidade a armazenagem de materiais passa a ter uma participação muito importante em toda a cadeia de suprimentos.
Segundo Bowersox, et al. (2006), a formação do estoque deve ser baseada nos custos e serviços, ou seja, nenhuma atividade de armazenamento deve ser inclusa em um processo logístico, sem que seja justificada por alguma relação de custos e serviços. Ainda afirmam que os estoques são concebidos dentro de um sistema lógico para baixar o custo total ou aumentar o nível de serviço ao cliente e que o uso dos armazéns pode ser uma peça vital na estratégia logística de uma
empresa que visa distribuição nacional.
O conceito e importância da acurácia nos estoques parte do princípio de que as empresas buscam a redução dos custos operacionais e com isso os estoques têm sido administrados para ficarem cada vez mais enxutos, isto é, para uma mesma previsão de vendas há menos quantidades armazenadas. A questão é encontrar um meio de atender a demanda prevista com o menor custo possível.
A redução do estoque é um diferencial competitivo, porém a falta de qualidade nas informações do saldo do estoque entre o que há fisicamente e o que foi cadastrado no sistema provocam o aumento dos custos relacionados às operações logísticas.
Acurácia pode ser definida como o grau de exatidão das informações de estoque, para Martins 2006, leva-se em consideração para encontrar a acurácia as informações registradas no sistema de gestão de estoques e a conferência física dos itens.

Estudo de Caso
A empresa estudada tem aproximadamente 2500 tipos diferentes de sku - e o recebimento de material acabado da produção acontece diariamente, como o setup da produção é lento, o fornecimento diário se reduz a poucos itens, porém em grandes quantidades, o volume pode chegar a 80 paletes diários, aproximadamente duas carretas. Também são recebidos materiais
importados, mas em quantidades reduzidas e suprem alguma demanda não fabricada na planta.
O processo de entrada é feito por um conferente manualmente, sem recontagem e sem contagem cega, assim o processo se torna mais rápido. Os itens são estocados e endereçados em locais específicos por tipo de sku para melhorar a operacionalidade das atividades e acelerar o processo de separação. O estoque é formado por dois depósitos interligados, sendo denominados de depósito A e depósito B. Os itens produzidos são armazenados no depósito A e os importados são armazenados no depósito B. O endereçamento e alocação dos itens são feitos em porta-paletes com  quatro níveis chegando a quatro metros de altura. A necessidade de verticalização .
Todo o processo de entrada, separação e carregamento dos itens é feito de forma manual, ou seja, os inputs (entrada de dados no sistema de estoque) são digitados manualmente, bem como todo o fluxo de movimentação de materiais.
Dentro deste contexto entendemos que as atividades são realizadas mediante as informações baseadas em papel que por sua vez depende de intervenção humana e com o passar do tempo devido ao cansaço e fadiga a conferência fica prejudicada ocasionando erros dentro do depósito e, por conseguinte até ao cliente.
Em 2008 a acuracidade do depósito girava em torno de 90 %, a média de erros operacionais/ano era de 19 erros impactando diretamente aos clientes finais.
Porém há erros internos que são corrigidos antes que cheguem aos clientes, estes erros são de itens fora de posição, lotes de produção e até itens em locais errados e na quantidade errada.
Muito tempo é gasto na procura de materiais “perdidos” no depósito. Essa informação ressalta a necessidade de manter a acurácia próxima a 100%. Segundo Bertaglia (2009), a acurácia pode ser definida pela relação entre a quantidade física e a quantidade contábil ou nos registros de controle.
é necessária, pois os espaços físicos dos depósitos são limitados. Os níveis são denominados de A, B, C e D.
É importante esclarecer que a medição da acuracidade que interessa ao processo de planejamento de estoques e atendimento aos clientes internos e externos é a comparação entre as quantidades físicas dos materiais existentes nos depósitos e as registradas nos sistemas computadorizados. (Sucupira,
2009).
Para Semaica (2010) a acurácia é um dos principais índices de monitoramento relacionado ao nível de serviço ou valor estratégico, podendo ser mensurado periodicamente  nos inventários rotativos ou contagens cíclicas. Ainda afirma que o indicador de acuracidade no estoque atinge em média, no Brasil 95%, sendo que as melhores práticas de mercado têm índice de 99,5% em países como Japão e Estados Unidos da América.
A ausência de um sistema de Warehouse Management System (WMS) – sistema de gerenciamento de depósitos integrado com tecnologia por rádio frequência - proporciona uma vulnerabilidade nas operações.
Em um depósito em que a variedade de itens estocados é grande, as chances de fracasso não são pequenas.
Segundo Banzato (2010) o WMS é um software desenvolvido para gerenciar todas as atividades operacionais em um armazém e qualquer empresa pode implantar este software independente de ter ou não um Enterprise Resource Planning (ERP) – sistema integrado de gestão.
Geralmente, quando as empresas adquirem um sistema ERP, imaginam um pacote completo de soluções das mais variadas, porém o que se recebe é um aglomerado de módulos e sistemas, dentre estes um sistema de Warehouse Management (VM) que só controla entradas e saídas de materiais, com isso de imediato não seria necessário a aquisição de um WMS avulso, porém por se tratar de um sistema genérico, ou seja, adequado basicamente a todas as empresas, seu módulo de WM em muitos casos demanda parametrizações e parte das empresas acabam adotando o WMS como uma solução corporativa, pois um WMS é muito mais que controle de entradas e saídas. Além de controlar as informações de entradas e saídas, este sistema pode gerenciar informações desde a portaria de recebimento de veículos, identificar a entrada no estoque, controlar um mesmo item em mais de um local no mesmo estoque, ou em diferentes, apoiar o processo de inventário geral e rotativo, monitorar os recursos operacionais como empilhadeiras e pessoas, apontar a produtividade operacional (nível de serviço), possibilitar uma roteirização de separação inteligente, entre inúmeras outras funcionalidades. Um sistema WMS por rádio frequência é um sistema de comunicação sem fio que dá melhor mobilidade ao usuário e troca de informações em tempo real, sem intermediários, com isso as informações são mais acuradas.

Implantação
No caso da empresa estudada, o ERP foi o SAP e existe uma série de entraves que devem ser resolvidos para a implantação deste sistema, pois na aquisição deste o módulo WM não veio parametrizado para as necessidades do armazém, com isso é necessário arcar com gastos de parametrização que podem chegar à R$ 450.000,00. Diante deste cenário a proposta inicial foi a criação de procedimentos para a realização de contagens cíclicas no depósito de forma planejada. Este procedimento atua em quatro (quatro) pilares: Pessoas, Processos, Infraestrutura e Tecnologia.
O processo de contagem cíclica é simples, porém requer cuidados no apontamento das diferenças, pois todo ele é baseado em papel. Hoje contamos com 2.600 posições paletes com vários itens e a distribuição das contagens compreende-se basicamente em três conferentes, sendo um conferente por turno de trabalho. Estes conferentes trabalham em três turnos sendo cada turno de 8 horas, porém a atividade de contagem cíclica é apenas uma das várias atividades que estes conferentes têm em seu dia-a-dia, pois existem outras atividades que são tão importantes quanto
a contagem cíclica. Tomando a base de 2.600 posições a serem contadas mensalmente e considerando 22 dias úteis no mês, temos uma média de 118,18 posições a serem contadas diariamente, isto dividido em três conferentes e calculando a média para cada um nos dá 39,39 posições homem/dia. O tempo para a contagem de um palete é de aproximadamente 5 minutos, porque em média depende do número de itens no mesmo palete e da posição que este se encontra na estante porta-palete, com isso necessitamos de 196,96 minutos ou 3,28 horas dedicadas às contagens cíclicas. Na medida do possível podemos colocar mais pessoas para as contagens diminuindo este tempo. Estas contagens são feitas mediante uma listagem que representa a movimentação atualizada, com isso cada conferente ao detectar alguma falha repassa a listagem ao conferente líder que faz a correção no sistema se necessário.


Resultados
A implantação das contagens cíclicas foi necessária devido ao grande problema em nosso estoque que era a falta de acurácia suficiente para prestar um bom nível de serviço. Iniciamos a atividade no segundo semestre de 2008, foram aproximadamente 5 meses até a definição final do formato que é aplicado até hoje.
Este formato tornou-se uma meta mensal, com isso conseguimos realizar três ciclos completos por ano, e os resultados obtidos foram positivos. Já no primeiro ano de aplicação a acurácia chegou a 95% em 2009.
Em 2010 a acurácia subiu para 97,39 %, os erros operacionais caíram para 16 no ano, alguns destes erros por falta de atenção nas atividades de distribuição.
Em 2011 no primeiro semestre a acurácia subiu para 97,76 %, durante as contagens cíclicas foram detectados algumas divergências como erro de lote de produção, erro de posicionamento por digitação incorreta da posição, etc.. Os erros operacionais diminuíram para 7 até aqui e houve também uma diminuição de falta de material nas posições, ou seja, no ato da separação do material o conferente não encontra problemas em localizar os materiais.
Abaixo temos as figuras 1 e 2 que representam graficamente a evolução das contagens cíclicas versus erros operacionais:




Considerações Finais
Diante dos problemas e exemplos apresentados, se faz necessário a conscientização do pessoal operacional envolvido no processo de armazenamento e movimentação de materiais. Se não tivermos pessoas comprometidas, nem mesmo um sistema de WMS por Rádio Frequência poderá elevar a acurácia a 100% ou próximo disso.
Evidenciou-se que mesmo sem o investimento em um sistema WMS por rádio frequência pode-se obter bons resultados no tocante a acurácia. Atingir a exatidão nas informações de estoque é um objetivo, entretanto, a contagem cíclica tornou-se ferramenta fundamental e agora é uma meta mensal, e provou contribuir no apontamento de erros, destarte possibilitou maior visibilidade e atuação nas causas a fim de eliminar as falhas.



Referências bibliográficas
BALLOU, R. H.
administração de materiais e distribuição física, São Paulo: Atlas, 1993.
______ .
Logística
BANZATO, Eduardo. ERP + WMS = Excelência. Disponível
em http://www.guiadelogistica.com.br acesso em 20 de outubro de 2010
______
BERTAGLIA, Paulo R. 
Cadeia de Abastecimento, São Paulo : Saraiva, 2009.
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BOWERSOX, Donald J. ; CLOSS, David J. ; COOPER, M.
Bixby G, Porto Alegre: Bookman, 2006.
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Fleury, Paulo F.; Wanke, Peter; Fiqueiredo, Kleber F.
Empresarial: a Perspectiva Brasileira/(Organização), São Paulo: Atlas, 2008
______ .
MARTINS, Petrônio Garcia.
Planejamento do Fluxo de Produtos e dos Recursos Materiais, São Paulo: 2006
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acuracidade de Estoque em Logística de Medicamentos e Produtos para Saúde.
ago.2010 Disponível em<http://www.racine.com.br/
setor-industrial/portal-racine/setor-industrial/industria-de-produtos-medicos/correlatos/acuracidade-deestoque-em-logistica-de-medicamentos-e-produtospara-a-saude> acesso em 09 out 2010.

______
Sucupira, Cezar Inventários Físicos: a importância da
acuracidade dos estoques.  Seção publicações 2009 ,Disponível em <http//WWW.ideagri.com.br/plus/
modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=121> acesso em 09 out 2010

Informações sobre os autores:

Marcelo Rodrigues
Graduação em administração na Faculdade Unida de Suzano-Unizuz em 2008.
 Há quinze anos trabalhando na área de Logística e Administração de Processos

Jean Carlos Cavaleiro
Formado em Administração de Empresas, Especialista em Gestão de Negócios, Mestre em Engenharia da Produção e Doutorando em Engenharia da Produção.
Professor universitário há dez anos em instituições como Universidade Cruzeiro do Sul, Universidade Paulista e UNISUZ. Coordenador do curso de Logística na Universidade Paulista, Coordenador do Escritório de práticas de Gestão.

Fernando Souza Cáceres
Graduado em administração pela Universidade Cidade de São Paulo, especialista em finanças de empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Professor orientador de estágio supervisionado e trabalhos de conclusão do curso de administração da Faculdade Unida de Suzano.


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